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BALLET: DESCUBRA POR QUE OS PRIMEIROS ANOS SÃO TÃO IMPORTANTES

Texto: Daney Bentin
Data: 8 de junho de 2015

Gosto de sen­tar na sala de aula e obser­var as peque­nas bai­la­ri­nas que che­gam para seu pri­meiro dia na escola de dança. Percebo em seus olha­res uma ino­cente ansi­e­dade para ini­ciar o mais rápido pos­sí­vel seus estu­dos, apren­der os pri­mei­ros movi­men­tos e saí­rem dan­çando por onde pas­sam. Após um período em uma turma de baby class ou pré-ballet, elas ainda não têm noção da quan­ti­dade de infor­ma­ções que rece­be­rão já no pri­meiro dia de aula.

Em minha for­ma­ção clás­sica, os dois pri­mei­ros anos fize­ram toda a dife­rença. Neles tive con­tato com o cerne e a base da téc­nica do bal­let que me auxi­li­a­ram, e muito, na com­pre­en­são, na exe­cu­ção e no ensino de toda a meto­do­lo­gia ao longo de meus estu­dos. Dessa forma, a minha pre­o­cu­pa­ção com os anos de for­ma­ção ini­ci­ais des­sas cri­an­ças é um ponto cons­tante em meu trabalho.

A cada con­curso, fes­ti­val, curso de férias ou workshop do qual par­ti­cipo tenho a opor­tu­ni­dade de obser­var o tra­ba­lho de inú­me­ras esco­las com suas cri­an­ças. Muitos tra­ba­lhos de qua­li­dade são apre­sen­ta­dos, core­o­gra­fias nas quais é per­cep­tí­vel a pre­o­cu­pa­ção com uma deli­cada lapi­da­ção da téc­nica clás­sica. Porém, nem tudo é tão belo assim. Alguns tra­ba­lhos se des­ta­cam pelo excesso e sobre­carga de infor­ma­ções impró­prias para a matu­ri­dade física das cri­an­ças, des­pren­di­dos do cui­dado com o apri­mo­ra­mento neces­sá­rio dos anos ini­ci­ais, com a decom­po­si­ção de cada movi­mento. Em outros, con­sigo vis­lum­brar a forma banal, exa­ge­ra­da­mente lúdica, com a qual o bal­let é ensi­nado aos peque­nos, criando-se, então, um hábito de core­o­gra­fias não-infan­tis (o que é natu­ral­mente pró­prio dessa faixa), mas, sim, infan­ti­li­za­das (des­pre­o­cu­pa­das com a base for­ma­tiva do bal­let clássico). Bailarina nos primeiros anos de Ballet

A par­tir desse con­texto, paro e me per­gunto: como devem ser as aulas des­sas cri­an­ças que, pela idade, pos­si­vel­mente estão em um 1º e/ou 2º ano de uma escola de dança? Será que há uma pre­o­cu­pa­ção por parte do pro­fes­sor de trans­mi­tir, com muito cui­dado e muito deta­lhe, a base da téc­nica clás­sica? Os exer­cí­cios são fixa­dos mais de uma vez em dife­ren­tes momen­tos de uma mesma aula? Essas cri­an­ças real­mente com­pre­en­dem, den­tro de suas pos­si­bi­li­da­des cog­ni­ti­vas, as posi­ções de bra­ços e per­nas por exem­plo? Reflito bas­tante, rea­va­lio minhas pró­prias aulas e pro­curo pro­por­ci­o­nar uma fun­da­ção bem sólida no apren­di­zado dos pri­mei­ros pas­sos de cada aluno meu.

Em uma aula de 1º e 2º anos de for­ma­ção clás­sica, con­cei­tos como épau­le­ment, port de bras, posi­ções de bra­ços, posi­ções de pés, plié, relevé, tendu e jeté, bem como o posi­ci­o­na­mento do corpo, o for­ta­le­ci­mento da mus­cu­la­tura do qua­dril, abdô­men e cos­tas, pre­ci­sam estar bem fixa­dos. Afinal, todos nós, bai­la­ri­nos e pro­fes­so­res, sabe­mos que esses são requi­si­tos basi­la­res para todo o desen­vol­vi­mento da téc­nica clás­sica, não sabemos?!

Os exer­cí­cios de intro­du­ção e, pos­te­ri­or­mente, fixa­ção de cada um des­ses con­cei­tos neces­si­tam ser decom­pos­tos e trans­mi­ti­dos de forma calma, clara e bem coe­rente. Uma pré­via expli­ca­ção é sem­pre neces­sá­ria, e a repe­ti­ção da mesma deve ser cons­tante. Os movi­men­tos não neces­si­tam ser ensi­na­dos de forma “atro­pe­lada”, pulando eta­pas ou de maneira super­fi­cial para que pos­sa­mos avan­çar com a maté­ria dada. Pelo con­trá­rio, o obje­tivo des­ses dois anos ini­ci­ais da for­ma­ção do bai­la­rino clás­sico é jus­ta­mente fixar bem a base da téc­nica clás­sica. As aulas pre­ci­sam con­ter todas as eta­pas: alon­ga­mento e for­ta­le­ci­mento da mus­cu­la­tura, exer­cí­cios na barra e a fixa­ção dos mes­mos no centro.

Os sal­tos neces­si­tam de uma aten­ção espe­cial, pois a fun­ção do plié nesse momento deve ser lem­brada e relem­brada a fim de evi­tar pos­sí­veis lesões futu­ras. Começamos com os sal­tos bási­cos, de duas per­nas para duas per­nas, e avan­ça­mos con­forme a matu­ri­dade de cada turma. É pre­ciso ter paci­ên­cia e per­se­ve­rança para se obter sucesso a longo prazo com o tra­ba­lho dos peque­nos bai­la­ri­nos. O pro­fes­sor que leci­ona em tur­mas ini­ci­ais neces­sita reci­clar seus conhe­ci­men­tos téc­ni­cos e meto­do­ló­gi­cos de tem­pos a tem­pos no intuito de enri­que­cer ainda mais sua forma de tra­ba­lhar. Desse modo, tanto ele quanto seus alu­nos sai­rão ganhando. Sei bem que, nessa fase, as aulas pare­cem ser “cha­tas” ou len­tas demais, há dias até em que ter­mi­na­mos com a sen­sa­ção de que não saí­mos do pri­meiro exer­cí­cio por repe­tir a mesma expli­ca­ção cerca de cinco vezes, mas acre­di­tem em mim: é bem melhor assim.

Quando tra­ba­lha­mos de forma tran­quila, seguindo um pro­grama de curso bem estru­tu­rado, um plano de aula ela­bo­rado em bene­fí­cio do aluno e cer­tos de que os movi­men­tos estão sendo cons­tan­te­mente relem­bra­dos, ter­mi­na­mos o ano com a cer­teza de que o básico, o neces­sá­rio para que o bai­la­rino desen­volva todo o seu conhe­ci­mento téc­nico sem danos físi­cos futu­ros foi ensi­nado e muito bem fixado. Fica aqui, então, a dica para todos os pro­fes­so­res de bal­let: parem, ana­lise suas aulas, rea­va­liem seu tra­ba­lho, pes­qui­sem, reci­clem conhe­ci­men­tos e pro­por­ci­o­nem aos seus alu­nos uma base sólida e forte do ensino da téc­nica clás­sica. Afinal, gran­des bai­la­ri­nos se for­mam desde o pri­meiro ano de ballet!

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Texto: Daney Bentin
Fonte: Blog Loja Ana Botafogo

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