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DISCIPLINA E BALLET CLÁSSICO: UMA DUPLA QUE DÁ CERTO?

Texto: Daney Bentin
Data: 4 de maio de 2016

Geralmente, quando estou entre amigos ou conhecidos que não compartilham do meu dia a dia na dança, ouço falas que despertam em mim um certo incômodo. Falas do tipo: “Nossa, ballet clássico te prende muito”, ou ainda “Prefiro outra modalidade de dança que não tenha uma disciplina tão rígida”. Confesso que, num primeiro momento, tenho vontade de dar uma resposta bem atravessada; afinal, estão prejulgando (e mal) a minha área de trabalho, meu campo de estudo. Não saio por aí falando mal daquilo que não conheço. Mas, logo em seguida a esse meu momento de inquietação interna, respiro (fundo), tomo fôlego e brinco: “É, realmente ballet é muito difícil! ”

Disciplina como virtude humana é trabalhada nas escolas de ensino regular desde o início da vida estudantil de nossas crianças. Ela está presente na rotina instituída em cada turma, no convívio entre alunos e professores, nas atividades de dentro e de fora de sala de aula, na confecção de trabalhos de artes, na resolução dos problemas matemáticos, na escrita de uma redação e até mesmo nas regras e acordos durante uma brincadeira. A competência disciplina, desenvolvida e exercitada constantemente, possibilita ao estudante experimentar sua vida de forma mais significativa, seja dentro ou fora da escola, pois, quando se mantém o foco em alguma atividade (formal ou informal), aproveita-se mais o processo, aprende-se mais com os erros, e o “sabor” do êxito se torna mais real.

Bailarinas na Barra

No ambiente do ballet clássico, o desenvolvimento e a compreensão da disciplina se igualam à dinâmica das escolas e da vida dos estudantes. Nas aulas, essa virtude não é tratada como algo intransigente, responsável pela formatação de todos de maneira homogênea. Tratada como habilidade a ser evoluída, a disciplina serve ao ballet possibilitando ao estudante perseverar nesta arte repleta de “altos e baixos”, “idas e vindas”. O professor que busca ensinar valores, e não regras duras e fechadas, abre possibilidades em sua sala de aula. Não basta apenas dizer que “o coque deve estar impecável; as meias e sapatilhas, limpas e o uniforme, completo” ou que o estudante precisa “ter pontualidade inglesa, ouvir enquanto o professor explica, estar presente em aulas e ensaios, sabendo portar-se durante os mesmos” sem que o próprio estudante compreenda a real importância disso durante seus estudos de ballet clássico. Tudo é relevante não porque o professor é chato ou quer tudo da sua maneira, mas porque, já afirmava Nietzsche, só se alcança um fim verdadeiro e significativo se o artista inclui em seu “fazer arte” o hábito (de repetir até conseguir), a obediência (de estar disponível aos seus próprios impulsos e vontades de fazer acontecer) e uma habituação à disciplina, que torna viável os dois passos anteriores descritos.

Em minha prática como pedagoga de ballet clássico e coreógrafa/ensaiadora, procuro basear minha dinâmica de trabalho nessas três vertentes nietzschianas (por assim dizer). Tento por inúmeras vezes, mostrar aos meus alunos, sejam adolescentes ou crianças, que a habilidade disciplina precisa ser desenvolvida dentro deles; que precisam ter como hábito o trabalho constante do físico aliado ao aprimoramento da técnica e que o respeito, o zelo e a atenção que tanto prezo em sala podem (e devem) ser levados para a vida fora da aula, pois a maioria das situações diárias e cotidianas pelas quais passamos nos exige um conhecimento interpessoal e intrapessoal tamanho que nos permite crescer constantemente.

Assim, caros alunos e colegas de trabalho, não desprezemos, muito menos menosprezemos, o valor e a influência que a disciplina ensinada no ballet clássico pode exercer na vida dos estudantes. É preciso que os professores tenham cada vez mais vontade de ensinar, não somente a técnica, mas o valor que ela pode agregar (somar) de positivo à vivência das crianças, adolescentes e adultos. Afinal:

Ele salva-se pela arte, e através da arte salva-se nele – a vida!
(Friedrich Nietzsche)

Texto: Daney Bentin
Fonte: Blog Loja Ana Botafogo

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